.....Eu
era na Montanha. Cerrava-se pouco a pouco a boca do homem e começava
o murmúrio do Silêncio. Em baixo, perto e longe, uma névoa
fina, casando-se com o fumo dos lares, envolvia a terra em sonho e recolhimento.
Na montanha começava o colóquio dos humildes. Junto a mim
uma planta rasteira e anónima entregava o coração ao
vento misterioso do crepúsculo. Estremecia dum modo singular, inquietante.
A Montanha concentrava a sombra nos flancos. Eu olhava e sentia correr em
mim o tempo. Uma profunda tristeza, espessa e bem material, me apertava
o coração. Ao meu lado uma árvore; que eu amo e, há
muito, conheço no sofrimento; pôs-se a entornar sobre mim pesadelos
de sombra. É um velho carvalho. Alto, contorcionado, ergue os ramos
convulsos na serenidade da Sombra.
.....As
suas raízes são vagalhões petrificados.
.....Lá
em cima a vida é rude. Há ventanias arrepiantes. Os seus ramos
subiram a alturas onde os ventos insofridos ululam.
Por isso aquela árvore penetrou a Montanha, espalhou sobre ela aquele
cordame de raízes.
.....Procuro
afinar com as falas do Silêncio. E é cada vez mais espessa,
mais negra e material a minha tristeza. Sinto corações na
sombra, diluídas ternuras, ignorantes amores que se buscam. E cada
vez, mais materialmente, dentro de mim, sinto correr o tempo.
.....E
começo a compreender as falas do Silêncio. Tudo soluça,
porque tudo se fala no seio do Amor.
.....É
na Éternidade que se tocam as criaturas mortais. Tudo o que morre
quer afirmar a imortalidade do seu amor. Esta pobre Natureza que me cerca
e eu beijo é, como eu, vítima do Tempo. E agora sinto correr
o Tempo por sobre todos os amores e vejo o horizonte coberto dos cadáveres
de tantos sonhos, aspirações e afectos. Esta anónima
planta estremece inquieta, porque ao abrir dos lábios para erguer
a palavra, ao rasgar do coração para espalhar o Amor, responde
a cegueira do Tempo, que apaga a palavra esboçada, que dispersa o
amor iniciado.
.....E
ela chama no misterioso, solitário espaço! Clama como um protesto
e como uma súplica. E além, no despido aconchego daqueles
lares, eu vejo mãos erguidas que imploram Eternidade. Alguém
dentro de mim responde a esses gritos de aflição, que pedem
socorro.
.....Esse
alguém é o Poeta. Olhos incendiados, coração
em pura chama de amor, ele caminha, soberbamente glorioso e triste. Ele,
só ele, sabe extrair a eternidade ao instante. Ele vai dizer a todas
as cousas mortais que há eminências que dominam o Infinito.
E, no seu coração e por virtude do seu amor divino, as cousas
efémeras se volvem imortais.
A eterna presença das grandes virtudes, das grandes dolorosas experiências,
o Poeta a realiza.
.....Sofrimentos
humanos, esperanças humanas, ansiedades humanas, o Poeta as torna
permanentes na vida do homem. Os valores morais não se perdem na
humanidade, porque sempre o coração do Poeta os recebe para
os eternizar. Não se perdem no Infinito? Ainda o Poeta os ergue às
eminências sobranceiras, dominadoras de Deus. E ou a verdade última
do Universo é um sarcasmo, ou a eternidade plena coloca o Poeta todas
as obras do Amor.
.....Ser
Poeta é eternizar o instante, é fazer da vida um contínuo
deslumbramento, um permanente convívio com Deus. Deus omnipotente?
Se a nossa razão é uma mentira, pode ser Deus impotente, imcompleto.
.....Se
não é a nossa razão um ludíbrio, é Deus
a plenitude infinita. Mas sempre o Poeta é divino, porque nos exalta,
nos eleva, nos sublima. É ele o ponto de contacto da nossa pobre
alma quotidiana com a nossa efémera alma sublime. E é indiscutível
a existência de uma realidade espiritual para além e por cima
da humana realidade consuetudinária. Perfeita, infinita? Mistério.
Mas no mistério vivem as almas e, sem ele, impossível seria
a existência. Não o mistério sombrio do Destino, mas
o claro mistério da inesgotabilidade do Amor.
.....E
no mistério, o Poeta canta, e no mistério se eleva luminosa
a sua fraterna oração de piedade e amor. O Mundo sem mistério
é absurdo; seria um todo acabado e perfeito, não seria o Mundo,
mas Deus. A objectivação completa seria o aniquilamento da
alma, a dispersão absoluta.
.....Na
fluidez do mistério é o seio inesgotável de amor, onde
as almas se alimentam; onde a virtude, o esforço, a perseverança
mergulham raízes de sufrimiento para erguerem as flores da fraternidade
e da candura.
Nesse oceano do mistério o Poeta mergulha e, a sorrir ao Sol, ele
levanta nas evangélicas mãos as pérolas da bondade
oculta, silenciosa e humilde.
Assim falou dentro de mim o Poeta.
.....A
noite vestira de sombra a natureza inteira. E no recolhimento da Sombra,
homens e coisas se abandonam numa confiança infantil. Desci vagarosamente
a Montanha, sentindo que ia medindo com beleza os momentos, que vagarosamente
se enchian do meu coração. E já não corria o
tempo sobre as coisas; elas dolorosamente iam tecendo o seu tempo, perdendo
uma parte da obra em tentativas e imperfeições. E, na cordilheira
mais elevada da minha alma, eu via brilhar um sol eterno, de pura luz. Ao
chegar à aldeia encontrei uma criança esfarrapada e triste.
Diluído em amor, enternecimento, humildade e orgulho beijei loucamente
essa criança.
.....Como
eram transparentes, como eram brancos, os olhos da Eternidade!
(Leonardo
Coimbra, na revista A Águia, Porto, 1911, pág 5-6)
Texto de Leonardo Coimbra (1883-1936), flilósofo que chegou a ser
Ministro da Instrucción Pública na década de 20, criador
da Faculdade de Letras do Porto, onde leccionou entre 1919-31. Faleceu num
accidente de viação na Serra de Baltar. É difícil
imaginar hoje um ministro a redigir um texto assim.
EL POETA
.....Yo
estaba en la Montaña. Se cerraba poco a poco la boca del hombre y
comenzaba el murmullo del Silencio. Abajo, cerca y lejos, una niebla fina,
casándose con el humo de los hogares, envolvía la tierra en
sueño y recogimiento. En la Montaña comenzaba el coloquio
de los humildes . Junto a mí una planta rastrera y anónima
entregaba el corazón al viento misterioso del crepúsculo.
Se estremecía de un modo singular, inquietante. La Montaña
concentraba la sombra en los flancos. Yo miraba y sentía correr en
mi el tiempo. Una profunda tristeza, espesa, bien material, me apretaba
el corazón. A mi lado un árbol; que yo amo y, hace mucho,
conozco en el sufrimiento; se puso a derramar sobre mi pesadillas de sombra.
Es un viejo roble. Alto, contorsionado, levanta sus ramas convulsas en la
serenidad de la Sombra.
.....Sus
raíces son ondulaciones petrificadas.
.....Allá
arriba la vida es ruda. Hay vendavales escalofriantes. Sus ramas han subido
a alturas donde los vientos insufridos ululan.
Por ello aquel árbol penetró la Montaña, esparció
sobre ela aquel cordaje de raíces.
.....Busco
afinar con las hablas del Silencio. Y es cada vez más espesa, más
negra y material mi tristeza. Siento corazones en la sombra, diluídas
ternuras, ignorantes amores que se buscan. Y cada vez, más materialmente,
dentro de mí, siento correr el tiempo.
.....Y
comienzo a comprender las hablas del Silencio. Todo solloza, porque todo
se habla en el seno del Amor.
.....Es
en la Eternidad que se tocan las criaturas mortales. Todo lo que muere quiere
afirmar la inmortalidad de su amor. Esta pobre Naturaleza que me cerca es,
como yo, víctima del Tiempo. Y ahora siento correr el Tiempo sobre
todos los amores y veo el horizonte cubierto de los cadáveres de
tantos sueños, aspiraciones y afectos. Esta anónima planta
se estremece inquieta, porque al abrir de los labios para leventar la palabra,
al rasgar del corazón para esparcir el Amor, responde la ceguera
del Tiempo, que apaga la palabra esbozada, que dispersa el amor iniciado.
.....Y
ella llama en el misterioso, ¡solitario espacio! Clama como una protesta
y como una súplica. Y más allá, en el desnudo abrigo
de aquellos hogares, yo veo manos levantadas que imploran Eternidad. Alguien
dentro de mi responde a eses gritos de aflicción, que piden socorro.
Ese alguien es el Poeta. Ojos incendiados, corazón en pura llama
de amor, el camina, soberbiamente glorioso y triste. El, sólo él,
sabe extraer la eternidad al instante. El va a decir a todas las cosas mortales
que hay eminencias que dominan el Infinito. Y, en su corazón y por
virtud de su amor divino, las cosas efímeras se vuelven inmortales.
.....La
eterna presencia de las grandes virtudes, de las grandes dolorosas experiencias,
el Poeta la realiza.
.....Sufrimientos
humanos, esperanzas humanas, ansiedades humanas, el Poeta las vuelve permanentes
en la vida del hombre. Los valores morales no se pierden en la humanidad,
porque siempre el corazón del Poeta los recibe para eternizarlos.
¿No se pierden en el Infinito? Aún el Poeta los encumbra a
las eminencias soberanas, dominadoras de Dios. Y o la verdad última
en el Universo es un sarcasmo, o la eternidad plena pone al Poeta todas
las obras del Amor.
.....Ser
Poeta es eternizar el instante, es hacer de la vida un continuo deslumbramiento,
una permanente convivencia con Dios. ¿Dios omnipotente? Si nuestra
razón es una mentira, puede Dios ser impotente, incompleto.
Si no es nuestra razón una burla, es Dios la plenitud infinita. Mas
siempre el Poeta es divino, porque nos exalta, nos eleva, nos sublima. Es
el el punto de contacto de nuestra pobre alma cotidiana con nuestra efímera
alma sublime. .....Y
es indiscutible la existencia de una realidad espiritual más allá
y por encima de la humana realidad consuetudinaria. ¿Perfecta, infinita?
Misterio. Mas en el misterio viven las almas y, sin el, imposible sería
la existencia. No el misterio sombrio del Destino, sino el claro misterio
de la inagotabilidad del Amor.
.....En
el misterio, el Poeta canta, y en el misterio se eleva luminosa su fraterna
oración de piedad y amor. El Mundo sin misterio es absurdo; sería
un todo acabado y perfecto, no sería el Mundo, sino Dios. La objetivación
completa sería el aniquilamiento del alma, la dispersión absoluta.
En la fluidez del misterio es el seno inagotable del amor, donde las almas
se alimentan; donde la virtud, el esfuerzo, la perseverancia sumergen raíces
de sufrimiento para levantar las flores de la fraternidad y de la candura.
.....En
ese océano del misterio el Poeta se sumerge y, sonriendo al Sol,
el levanta en las evangélicas manos las pérlas de la bondad
oculta, silenciosa y humilde.
.....Así
habló dentro de mi el Poeta.
.....La
noche había vestido de sombra la naturaleza entera. Y en el recogimiento
de la Sombra, hombres y cosas se abandonaban en una confianza infantil.
Descendí lentamente la Montaña, sintiendo que iba midiendo
con belleza los momentos, que lentamente se llenaban de mi corazón.
Y ya no corría el tiempo sobre las cosas; ellas dolorosamente iban
tejiendo su tiempo, perdiendo una parte de la obra en tentativas e imperfecciones.
Y, en la cordillera mas elevada de mi alma, yo veía brillar un sol
eterno, de pura luz. Al llegar a la aldea encontré un niño
harapiento y triste. Diluído en amor, enternecimiento, humildad y
orgullo besé locamente ese niño.
.....¡Como
eran transparentes, como eran blancos, los ojos de la Eternidad!
Leonardo Coimbra, en la revista A Águia (El Águila), Oporto,
1911, pág 5-
Texto
de Leonardo Coimbra (1883-1936), filósofo que llegó a ser
Ministro de Instrucción Pública en los años 20, creador
de la Facultad de Letras de Oporto, donde leccionó entre 1919 y 1931.
Falleció en un accidente automovilístico en la Sierra de Baltar.
Es difícil imaginar hoy un ministro redactando un texto así.
O
Poeta
(Leonardo
Coimbra)