Portugal na Espanha árabe (1ª Parte)

Texto de Santiago Macias
27/10/2001 - in Expresso Revista
O Islão é associado a um ambiente de Mil e Uma Noites, de odaliscas e haréns, eunucos e cimitarras, tapetes voadores, sensualidade e poesia. Quem procurar em Portugal o legado islâmico por esse caminho terá desilusões amargas: não se encontra o que nunca existiu.*Título da colectânea editada por António Borges Coelho entre 1972 e 1975  

ESTAMOS em 711 depois de Cristo. Toda a Hispânia está ocupada pelos árabes... Toda? Não! Uma região habitada por irredutíveis hispanos resiste ainda e sempre ao invasor...
Durante longos anos este mito assombrou, como verdade indiscutível, a historiografia ibérica. Primeiro, teria havido uma massiva invasão de árabes que, depois de batidos os trilhos do Norte de África, cruzou o Estreito de Gibraltar e se lançou à conquista de um reino visigótico agonizante. Em dois ou três anos, e num verdadeiro «blitz», os «exércitos árabes» teriam varrido a Península Ibérica, remetendo os irredutíveis às Astúrias onde um Astérix, que neste caso se chamava Pelágio, preparou a resistência e a reconquista.
A visão catastrofista - invasão/destruição dos valores da cristandade/islamização forçada - marcou longamente a história do Ândalus (designação dada em árabe à Península Ibérica), a ponto de se poder imaginar que a partir do século VIII se teria entrado num período negro da história peninsular, com deslocação de populações, destruição de cidades, demolição de igrejas e a lenta morte do que tinha ficado do mundo romano.

É verdade que nem sempre o processo de islamização foi inteiramente pacífico e que pontualmente ocorreram intervenções militares. Mas o que ressalta de uma releitura dos textos (e de um reenquadramento da informação arqueológica) são sobretudo fenómenos de continuidade entre o antes e o depois da suposta invasão, que não foi, em muitos casos, mais que um processo de elaboradas negociações, cedências e garantias.

Uma divisão sem tratados nem convenções escritas ficaria estabelecida na linha do Tejo (com os importantes prolongamentos de Idanha-a-Velha e de Coimbra, as cidades do sul mais a norte), naquilo que é a divisão entre dois territórios, entre o que viria a ser mais tarde conhecido como Portugal Atlântico e Portugal Mediterrânico, corresponde este último, em traços gerais, ao que se designou como Gharb al-Ândalus (o ocidente do Ândalus).

Não só as principais cidades peninsulares mantêm ou reforçam a importância que detinham na Alta Idade Média como são oligarquias locais que ficam com as rédeas do poder durante a islamização. Esse carácter regional é bem visível em fenómenos como, por exemplo, as revoltas da cidade de Beja ao longo do século VIII e o estado de quase independência conseguido pelos Banu Marwan, no eixo Idanha-a-Velha/Mérida, ao longo de todo o século IX.

Esse processo prolonga-se até aos princípios do século X, numa época em que se irá instalar em Córdova a dinastia omeia, essa sim de origem oriental. O início do califado (em 929 d.C.) marcará um período de acentuada centralização e de algum apagamento do Gharb al-Ândalus. O espaço peninsular começa então a separar-se e a definir tendências: por um lado, a orientalização da sociedade do sul, cada vez mais ligada ao mundo mediterrânico; por outro lado, o avanço da reconquista, conduzida pela aguerrida aristocracia feudal do Norte, que irá aproveitar, cada vez de modo mais agressivo, as contradições internas da sociedade andaluza, para se lançar nos caminhos do Sul.

Se a primeira época tinha sido marcada por alguma estabilidade e pela manutenção do papel de destaque das cidades «romanas» (como Beja, Idanha-a-Velha ou Faro), o segundo período terá dois momentos decisivos: a queda do califado, nos inícios do século XI, que permitirá o ressurgimento de poderes regionais (os reinos de taifa, autónomos e com capitais em cidades como Faro, Mértola ou Badajoz) e o ano de 1147, quando a conquista de Lisboa e de Santarém rompeu em definitivo o equilíbrio entre o norte e o sul. Se, episodicamente, há ainda alguma resistência, os 100 anos que separam esses acontecimentos do final da islamização são de evidente recuo do espaço mediterrânico.


PORTUGAL EN LA ESPAÑA ÁRABE (1ª parte)

Texto de Santiago Macias
27/10/2001-en Expresso Revista

El Islam está asociado a un ambiente de Mil y Una Noches, de odaliscas y harenes, eunucos y cimitarras, alfombras voladoras, sensualidad y poesía. Quien busque en Portugal el legado islámico por ese camino tendrá desilusiones amargas: no se encuentra lo que nunca existió. * Título de la colectánea editada por António Borges Coelho entre 1972 y 1975.

Estamos en 711 después de Cristo. Toda Hispania está ocupada por los árabes... ¿Toda? No! Una región habitada por irreductibles hispanos resiste aun y siempre al invasor...

Durante largos años este mito asombró, como verdad indiscutible, la historiografía ibérica. Primero, habría habido una masiva invasión de árabes que, después de trillar el Norte de África, cruzó el Estrecho de Gibraltar y se lanzó a la conquista de un reino visigodo agonizante. En dos o tres años, y en un verdadero “Blitz”, los “ejércitos árabes” habrían varrido la Península ibérica, enviando los irreductibles a Asturias donde un Astérx, que en este caso se llamaba Pelayo, preparó la resistencia y la reconquista.

La visión catastrofista – invasión/destrucción de los valores de la cristiandad/slamización forzada – marcó largamente la historia de Al-Andalus designación dada en Árabe a la Península Ibérica) hasta el punto de poderse imaginar que a partir del siglo VIII se habría entrado en un período negro de la histoia peninsular, con desplazamiento de poblaciones, destrucción de ciudades, demolición de iglesias y la lenta muerte de lo que había quedado del mundo romano.

Es verdad que no siempre el proceso de islamización fue enteramente pacífico y que puntualmente ocurrieron intervenciones militares. Pero lo que resalta de una relectura de los textos ( y de un reencuadramiento de la información arqueológica) son sobre todo fenómenos de continuidad entre el antes y el después de la supuesta invasión, que no fue, en muchos casos, sino un proceso de elaboradas negociaciones, cedencias y garantías.

Una división sin tratados ni convenciones escritas quedaría establecida en la línea del Tajo (con importantes prolongaciones de Idanha-a-Velha y de Coimbra, las ciudades del sur más al norte), en aquello que es la división entr dos territorios, entre lo que vendría a ser más tarde conocido como Portugal Atlántico y Portugal mediterránico, corresponde este último, en trazos generales, a lo que se designó como Gharb al-Andalus (u occidente del Andalus).

No sólo las principales ciudades penínsulares mantienen o refuerzan la importancia que tenían en la Alta Edad Media como son las agrupaciones locales que permanecen con las redes del poder durante la islamización. Ese carácter regional es bien visible en fenómenos como, por ejemplo, las revueltas de la ciudad de beja a lo largo del siglo VIII y el estado de casi independencia conseguido por los Banu Marwan, en el eje Idanha-a-Velha/Mérida, a lo largo de todo el siglo IX.

Ese proceso se prolonga hasta principios del siglo X, una época en que se irá a instalar en Córdoba la dinastía Omeya, esa sí de origen oriental. El inicio del califato (en 929 d. C.) marcará un período de acentuada centralización y de algún apagamiento de Gharb al-Andalus. El espacio peninsular comienza entonces a separarse y a definir tendencias: por un lado, la orientalización de la sociedad del sur, cada vez más ligada al mundo mediterráneo; por otro lado, el avance de la reconquista, conducida por la aguerrida aristocracia feudadl del Norte, que irá a aprovechar, cada vez de modo más agresivo, las contradicciones internas de la sociedad andaluza, para lanzarse a los caminos del Sur.

Si la primera época había sido marcada por alguna estabilidad y por la manutención del papel destacado de las ciudades “romanas” (como Beja, Idanha-a-Velha o Faro), el segundo período tendrá dos momentos decisivos: la caída del califato, en los inicios del siglo XI, que permitirá el resurgimiento de poderes regionales (los reinos de taifas, autónomos y con capitales en ciudades como Faro, Mértola o Badajoz) y el año de 1147, cuando la conquista de Lisboa y de Santarém rompió definitivamente el equilibrio entre el norte y el sur. Si, episodicamente, hay aún alguna resistencia, los 100 años que separan esos acontecimientos del final de la islamización son de evidente retracción del espacio mediterráneo.