Portugal na Espanha árabe (2ª Parte)

Continuação...

O que é interessante sublinhar é que, ao longo deste mais de 500 anos, foram sempre famílias de origem regional, os «muwallad» (autóctones convertidos, por conveniência ou convicção, à fé islâmica) quem controlou vastas áreas do território. E importa hoje sublinhar aspectos tão específicos como esse em vez de apontar para «invasores árabes» que teriam, aos poucos, sido expulsos de uma terra que nunca tinha deixado, no fundo, de ser cristã, tocada apenas na superfície pela fé corânica. Ideias como esta, bem enraizada nos nacionalismos peninsulares - e que os fascismos luso e hispano tão bem aproveitaram -, continuam ainda a ter seguidores.

«A Igreja do Corvo não conheceu alterações desde a época da dominação cristã; tem terras, que as almas pias têm o costume de lhe dar, e presentes, trazidos pelos cristãos que ali se deslocam em peregrinação. (...) É impossível lá passar sem tomar parte na grande refeição que é dada na igreja; é uma obrigação immuable, um uso a que não se pode escapar, tanto mais que é antigo, transmitido de época em época e consagrado por uma longa prática. A igreja é servida por padres e religiosos. Tem grandes tesouros e rendimentos muito consideráveis, que provêm em grande parte de terras que lhe foram legadas em diferentes partes do Gharb. Esses rendimentos servem as necessidades da igreja, dos seus servidores, de todos os que de alguma forma lhe estão ligados e dos estrangeiros que a vêm visitar em pequeno ou em grande número.»

Ao contrário do que se possa imaginar, esta descrição não saiu da pena de qualquer clérigo católico do Norte da Europa. As palavras são do geógrafo Edrisi e foram escritas um pouco antes de meados do século XII e refere-se a uma célebre igreja situada nas imediações do Cabo de S. Vicente, no nosso Algarve.

Os exemplos poderiam multiplicar-se, embora este seja particularmente expressivo, não só pela presença do templo, que era também local de peregrinação, como pelo facto de essa igreja ser uma proprietária rural importante na região.

A importância dos moçárabes foi, até à fase final da Reconquista, um dado indesmentível no ocidente peninsular. E que adquire maior significado quando posto em contradição, de novo com o binómio invasão/destruição que os tais malfadados árabes teriam trazido ao solo peninsular.

A esta decisiva revalorização do papel da comunidade moçárabe deve, de modo mais vincado nos dias que passam, ser destacado o papel da islamização, em todas as suas vertentes, no espaço geográfico que viria a tomar o nome de Portugal. Talvez se consiga assim dar um contributo para combater um desconhecimento que se arrasta no tempo. Quantas pessoas sabem que um dos grandes poetas do Ândalus se chamou Al-Mutâmide, nasceu em Beja e foi Rei de Sevilha na segunda metade do século XI? Quantos portugueses leram os textos dos escalabitanos Ibn Sara ou Ibn Bassam, do algarvio Ibn Ammar, de filósofos como o silvense Ibn Assid ou de místicos como o mertolense Al-Mertuli? Quantas terão conhecimento dos acordos que o feroz Afonso Henriques tentou fazer com o Ibn Qasi, sucessivamente senhor de Mértola e de Silves ? Quantas vezes se sublinhou o papel de mata-mouros de Geraldo Sem-Pavor e quantas mais se omitiu que o mesmo terrível guerreiro teve nos últimos anos da sua vida um estranho papel de agente duplo, até ser morto em terras marroquinas?

Diz-se com frequência, e com alguma razão, que o mundo andaluz foi, antes de mais, marcado por uma profunda atitude «ecológica». Com excepção dos complexos programas palatinos (como Medina az-Zahra) ou das construções de grande simbolismo e prestígio (refira-se, por exemplo, a Mesquita de Córdova), a maior parte do que se edificou reutilizou em grande escala materiais de períodos anteriores. Numa intensa prática de reciclagem foram incorporados nas construções do período islâmico colunas, arquitraves, pedras funerárias, fragmentos de estátuas, mais e mais peças cuja memória se tinha perdido ou que tinham deixado de ter qualquer préstimo.

Se é evidente que a corte dos califas ia buscar os melhores mosaístas ao mundo bizantino, os pequenos senhores locais não podiam aspirar a tanto e limitavam-se a imitar, numa escala modesta, o que as grandes oficinas da época produziam. Parece, a esse nível, claro que o ocidente peninsular nunca teve a importância, e por conseguinte os meios, que lhe permitissem ombrear com as principais cidades da bacia do Guadalquivir. Exceptua-se a cidade de Lisboa, o maior centro do ocidente, e que fez valer longamente o seu estatuto de grande centro moçárabe.

Um dos motivos da escassez de elementos visíveis do Islão Português reside precisamente na fragilidade do que, em termos físicos, se produziu. Casas de alvenaria pobre, muralhas em taipa, construções destinadas a durarem umas poucas gerações justificam, em parte, o desaparecimento das nossas cidades da presença física de tantos séculos de história. Os terramotos explicam também algumas destruições, embora os cataclismos naturais sejam, por norma, culpados de tudo aquilo que nunca sonharam fazer.

(Proximamente, 3ª parte)


Portugal en la España árabe (2ª Parte)

Lo que es interesante subrayar es que, a lo largo de estos más de 500 años, fueron siempre familias de origen tradicional, los "muwallad" (autóctonos convertidos, por conveniencia o convicción, a la fe islámica) quienes controlaron vastas áreas del territorio. Es importante hoy subrayar aspectos tan específicos como ese en vez de apuntar para "invasores árabes" que tendrían, poco a poco, sido expulsados de una tierra que nunca había dejado, en el fondo, de ser cristiana, tocada sólo en la superficie por la fé coránica. Ideas como esta, bien enraizada en los nacionalismos peninsulares - y que los fascismos luso e hispano tan bien aprovecharon -, continúan todavía teniendo seguidores.

"La Igreja do Corvo (Iglesia del Cuervo) no conoció alteraciones desde la época de la dominación cristiana; tiene tierras que las almas pías tienen la costumbre de darle, y regalos, traídos por los cristianos que allí se desplazan en peregrinación. (...) Es imposible allá pasar sin tomar parte en la gran comida que es dada en la iglesia; es una obligación inmutable, un uso al que no se puede escapar, tanto más que es antiguo, transmitido de época en época y consagrado por una larga práctica. La iglesia es servida por padres y religiosos. Tiene grandes tesoros y rendimientos muy considerables, que provienen en gran parte de tierras que les fueron legadas en diferentes partes de Gharb. Esos rendimientos sirven las necesidades de la iglesia, de sus servidores, de todos los que de alguna forma le están ligados y de los extranjeros que la vienen a visitar en pequeño o en gran número"

Al contrario de lo que se pueda imaginar, esta descripción no salió de la pluma de algún clérigo católico del Norte de Europa. Las palabras son del geógrafo Idris y fueron escritas un poco antes de mediados del siglo XII y se refiere a una célebre iglesia situada en las inmediaciones del Cabo de San Vicente, en nuestro Algarve.

Los ejemplos podrían multiplicarse, aún cuando este sea particularmente expresivo, no sólo por la presencia del templo, que era también lugar de peregrinación, sino por el hecho de que esa iglesia sea una propiedad rural importante en la región.

La importancia de los mozárabes fue, hasta la fase final de la Reconquista, un dato indesmentible en el occidente peninsular. Y que adquiere mayor significado cuando es puesto en contradicción, de nuevo con el binomio invasión /destrucción que los tales desafortunados árabes habrían traído al suelo peninsular.

A esta decisiva revalorización del papel de la comunidad mozárabe debe, de modo más acentuado en los días que pasan, ser destacado el papel de la islamización, en todas sus vertientes, en el espacio geográfico que vendría a tomar el nombre de Portugal. Tal vez se consiga así dar una contribución para combatir un desconocimiento que se arrastra en el tiempo. ¿Cuántas personas saben que uno de los grandes poetas del Al-Ándalus se llamó Al-Mutamid, nació en Beja y fue rey de Sevilla en la segunda mitad del siglo XI? ¿Cuántos portugueses leyeron los textos de los escalabitanos Ibn Sara o Ibn Bassam, del algarbío Ibn Ammar, de filósofos como el silvense Ibn Assid o de místicos como el mertolense Al-Mertuli? ¿Cuántos tendrán conocimiento de los acuerdos que el feroz Alfonso Henriques intentó hacer con Ibn Qasi, sucesivamente señor de Mërtola y de Silves? ¿Cuántas veces se subrayó el papel de matamoros de Gerardo Sin-Pavor y cuántas más se omitió que el mismo terrible guerrero tuvo en los últimos años de su vida un extraño papel de agente doble, hasta ser muerto en tierras marroquíes?

Se dice con frecuencia, y con alguna razón, que el mundo andaluz fue, ante todo, marcado por una profunda actitud "ecológica". Con excepción de los complejos programas palatinos (como Medina az-Zahara) o de las construcciones de gran simbolismo y prestigio (refiérase, por ejemplo, la Mezquita de Córdoba), la mayor parte de lo que se edificó reutilizó en gran medida materiales de los períodos anteriores. En una intensa práctica de reciclaje fueron incorporados en las construcciones del período islámico columnas, vigas maestras, piedras funerarias, fragmentos de estatuas, más y más piezas cuya memoria se había perdido o que habían dejado de tener utilidad alguna.

Si es evidente que la corte de los califas iba a buscar los mejores mosaiquistas al mundo bizantino, los pequeños señores locales no podían aspirar a tanto y se limitaban a imitar, en una escala modesta, lo que los grandes talleres de la época producían. Parece, a ese nivel, claro que el occidente peninsular nunca tuvo la importancia, y por consiguiente los medios, que le permitiesen codearse con las principales ciudades de la cuenca del Guadalquivir. Se exceptúa la ciudad de Lisboa, el mayor centro de occidente, y que hizo valer largamente su estatuto de gran centro mozárabe.

Uno de los motivos de la escasez de elementos visibles del Islam portugués reside precisamente en la fragilidad de lo que, en términos físicos, se produjo. Casas de albañilería pobre, murallas en tapia, construcciones destinadas a durar unas pocas generaciones justifican, en parte, la desaparición de nuestras ciudades de la presencia física de tantos siglos de historia. Los terremotos explican también algunas destrucciones, aunque los cataclismos naturales sean, por norma, culpados de todo aquello que nunca soñaran hacer.

(Proximamente, 3ª parte)