Portugal na Espanha árabe (3ª Parte)

Continuação...

Mas houve, sobretudo, a própria dinâmica das cidades, que não se compadeceu com vestígios do passado. Numa lógica muito nossa, tudo foi desaparecendo e sendo substituído sem que qualquer testemunho perdurasse. As mesquitas deram lugar a igrejas, os banhos desapareceram por entre os apelos ao pudor da Igreja, as pedras tumulares foram vendidas, os manuscritos queimados ou perdidos, as memórias de um passado mediterrânico a cada dia que passou se foram perdendo e ficando na arca das coisas esquecidas.

No século passado, o arabista espanhol Pascual de Gayangos recordava as centenas de lápides em árabe de Toledo mandadas destruir por Felipe II. A essa irreparável perda podemos, do nosso lado, contrapor a venda das pedras tumulares do cemitério mourisco de Lisboa para a construção do Hospital de Todos os Santos (que ficava junto ao Rossio e que o terramoto de 1755 se encarregou, por sua vez, de destruir). Ou a destruição da muralha almóada de Moura, mandada erguer na segunda metade do século XII, e cujas taipas foram utilizadas, um pouco antes de 1850, para fabricar salitre. Os exemplos poderiam multiplicar-se, numa escala que vai das destruições mais graves, nos sítios que maior crescimento urbano tiveram, às menos importantes, nos sítios que a desdita manteve mais tempo na obscuridade. Essa é uma das razões porque localidades como Silves ou Mértola, que conheceram longos períodos de imobilismo, podem hoje mostrar um património que terá existido, em maior ou menor escala, em muitos outros locais.

A fuga, para Granada, para Tunis ou Argel, das classes mais abastadas e dos mais ilustres homens de letras após a Reconquista não fez mais que acentuar a perda de um importante legado da cultura mediterrânica.

O que com mais frequência se associa à ideia do Islão é a imagem das Mil e Uma Noites: odaliscas e haréns, eunucos e cimitarras, tapetes voadores, sensualidade e poesia. Quem procurar em Portugal o legado islâmico por esse caminho terá certamente desilusões amargas e dificilmente encontrará o que nunca existiu. Onde pensamos em príncipes estão pastores, onde imaginamos cortes orientais estão pequenos senhores da terra, agricultores e artesãos. Onde se pensava que haveria tribos árabes, vindas do longínquo Iémen, há afinal uma civilização de comerciantes de todo o Mar Interior, de almocreves, de estudiosos e eruditos locais que fizeram mais pelo ensino do árabe (a língua franca e dos negócios) que toda e qualquer improvável invasão. Onde tentaremos ver «árabes» encontraremos apenas homens e mulheres do Mediterrâneo, cristãos, judeus ou muçulmanos que, na maior parte dos casos não só jamais participaram em qualquer invasão ou migração como nunca terão deixado de vista a terra que os viu nascer.

A procura sistemática desse passado é coisa recente em Portugal. Os estudos orientais nunca tiveram no nosso país a tradição que conheceram do outro lado da fronteira, e esforços isolados de homens brilhantes como David Lopes nunca conheceram sequência digna desse nome.
Talvez por isso tenham sido dois «outsiders» os protagonistas do interesse nas coisas islâmicas nos anos finais do regime fascista: Abel Viana, um professor primário que escavou o Castro da Cola (perto de Ourique) nos inícios da década de 60 do século passado e, sobretudo, António Borges Coelho, que organizou a excelente colectânea de textos «Portugal na Espanha Árabe», em quatro volumes editados pela Seara Nova entre 1972 e 1975. O 25 de Abril abriria ao ex-preso político Borges Coelho as portas da Universidade, permitindo-lhe ter papel activo na formação intelectual e cívica de uma nova geração, que depois se espalharia por escolas, museus, Ministérios e Câmaras Municipais.

Acabou por ser essa geração quem, em grande medida, deu um empurrão decisivo no conhecimento do passado islâmico em Portugal. Aquilo que os textos explicavam incompletamente (quem escrevia estava, por norma, ao serviço dos poderosos e era essa realidade que nos contava) foi preciso procurar-se debaixo da terra, em intervenções arqueológicas que se têm multiplicado um pouco por todo o sul. O projecto dirigido em Mértola por Cláudio Torres desde cedo deu resultados, permitindo chamar a atenção para um mundo até então quase desconhecido. O Prémio Pessoa que lhe foi atribuído em 1991 acabou por conferir definitiva carta de alforria a um domínio até há pouco visto com indiferença, quando não com hostilidade.

A conjugação destes diferentes factores - renovação dos quadros universitários, escavações arqueológicas, núcleos museológicos e exposições - permitem-nos hoje ter uma perspectiva mais ampla do que foi a islamização em Portugal. Desiludam-se os que procuram o Islão em majestosos palácios ou em grandes mesquitas. Não restam em Portugal mais do que dois ou três panos de muralha reconstruídos durante os períodos mais antigos da islamização (Idanha-a-Velha e Évora são os que mais facilmente se identificam), restos de construções de época almóada (segunda metade do século XII) - como os fragmentos da mesquita de Mértola, o poço-cisterna de Silves, algumas fortificações (como Paderne ou Salir, ambas no Algarve) e pouco mais. O resto terá que encontrar-se em museus e em escavações, nos textos dos poetas e dos geógrafos medievais, em imagens antigas e no que foi ficando na face das nossas cidades.

Se é verdade que muito do que é possível ver-se é fruto da arqueologia - a exposição «Portugal Islâmico: Os Últimos Sinais do Mediterrâneo», montada em 1998 no Museu Nacional de Arqueologia, teria sido impossível de preparar duas décadas antes -, muito do que hoje se chama, de forma um pouco indiscriminada, «herança árabe» não é mais do que fruto de uma civilização mediterrânica, onde coexistiram ao longo de centenas de anos cristãos, muçulmanos e judeus.

Escrevi há três anos, num texto assinado em conjunto com Cláudio Torres: «Modos de vida ligados à pastorícia, a tecelagem e uma agricultura de subsistência marcaram, durante séculos, o quotidiano das serras entre o Baixo Alentejo e o Algarve. No extremo meridional do território português, o lento trabalhar das azenhas, a exploração tradicional de hortas e de pomares, as artes da construção naval e da pesca e mesmo um persistente contacto com o Norte de África resistiram quase até aos nossos dias. Esse legado, hoje em acelerado processo de extinção é certamente mais difícil de identificar do que o são os vestígios artísticos e arqueológicos que a islamização deixou nos territórios do Gharb.»

É por essa via, a da procura dos simples homens e mulheres que no quotidiano foram construindo a história, que seguem hoje os nossos interesses. Mais do que uma história de invasões, guerras e batalhas é um percurso de memórias, de saberes e de técnicas herdadas e guardadas, ou perdidas, aquele que se tem vindo a percorrer.

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Portugal en la España Árabe (3ª Parte)

Continuación...

Pero hubo, sobre todo, la propia dinámica de las ciudades, que no se compadeció de los vestigios del pasado. En una lógica muy nuestra, todo fue desapareciendo y siendo substituído sin que ningún testimonio perdurase. Las mezquitas dieron lugar a iglesias, los baños desaparecieron entre los apelos al pudor de la Iglesia, las piedras tumulares fueron vendidas, los manuscritos quemados o perdidos, las memorias de un pasado mediterránico a cada día que pasaba se iban perdiendo en el arca de las cosas olvidadas.
En el siglo pasado, el arabista español Pascual de Gayangos recordaba las centenas de lápidas en árabe de Toledo mandadas destruir por Felipe II. A esa irreparable pérdida podemos, por nuestro lado, contraponer la venta de las piedras tumulares del cementerio morisco de Lisboa para la construcción del Hospital de Todos los Santos (que quedaba al lado del Rossio y que el terremoto de 1755 se encargó, a su vez, de destruir). O la destrucción de la muralla almohade de Moura, mandada levantar en la segunda mitad del siglo XII, y cuyas tapias fueron utilizadas, un poco antes de 1850, para fabricar salitre. Los ejemplos podrían multiplicarse, en una escala que va desde las destrucciones más graves, en los sítios que la desdicha mantuvo más tiempo en la oscuridad. Essa es una de las razones porque localidades como Silves o Mértola, que conocieron largos períodos de inmobilismo, pueden hoy mostrar un patrimonio que habrá existido, en mayor o menor escala, en muchos otros lugares.

La fuga, para Granada, para Túnez o Argel, de las classes más ricas y de los más ilustres hombres de letras después de la Reconquista no hizo más que acentuar la pérdida de un importante legado de la cultura mediterránica.

Lo que con más frecuencia se asocia a la idea del Islam es la imagen de las Mil y Una Noches: odaliscas y harenes, eunucos y cimitarras, alfombras voladoras, sensualidad y poesía. Quien busque en Portugal el legado islámico por ese camino tendrá ciertamente desilusiones amargas y dificilmente encontrará lo que nunca existió. Donde pensamos en príncipes están pastores, donde imaginamos cortes orientales están pequeños señores de la tierra, agricultores y artesanos. Donde se pensaba que habría tribus árabes, venidas del lejano Yemen, hay al final una civilización de comerciantes de todo el Mar interior, de almocrebes, de estudiosos, de eruditos locales que hicieron más por la enseñanza del árabe (la léngua franca de los negocios) que toda y cualquier improbable invasión. Donde intentaremos ver "árabes" encontraremos sólo hombres y mujeres del mediterráneo, cristianos, judíos o musulmanes que, en la mayor parte de los casos no sólo jamás participaron en ninguna invasión o migración como nunca habrán dejado de ver la tierra que los vio nacer.

La búsqueda sistemática de este pasado es cosa reciente en Portugal. Los estudios orientales nunca tuvieron en nuestro país la tradición que han conocido del otro lado de la frontera, y los esfuerzos aislados de hombres brillantes como David Lopes nunca conocieron secuencia digna de ese nombre.

Tal vez por eso hayan sido dos "outsiders" los protagonistas del interés en las cosas islámicas en los años finales del régimen fascista: Abel Viana, un maestro de primaria que escavó el Castro da Cola (cerca de Ourique) en los inicios de la década de los 60 del siglo pasado y, sobre todo, António Borges Coelho, que organizó la excelente colectánea de textos "Portugal en la España Árabe", en cuatro volúmenes editados por la Seara Nova entre 1972 y 1975. El 25 de Abril abriría al ex-preso político Borges Coelho las puertas de la Universidad permitiéndole tener papel activo en la formación intelectual y cívica de una nueva generación, que después se esparciría por escuelas, museos, ministerios y ayuntamientos.

Acabó siendo esa generación quien, en gran medida, dio un empujón decisivo en el conocimiento del pasado islámico en Portugal. Aquello que los textos explicaban de modo incompleto (quien escribía estaba, normalmente, al servicio de los poderosos y era esa realidad que nos contaba) fue preciso buscar debajo de la tierra, en intervenciones arqueológicas que se han multiplicado un poco por todo el sur. El proyecto dirigido en Mértola por Cláudio Torres pronto dio resultados, permitiendo llamar la atención para un mundo hasta entonces casi desconocido. El Premio Pessoa que le fue concedido en 1991 terminó por conferir definitiva carta de liberación a un dominio hasta hace poco visto con indiferencia, cuando no con hostilidad.

La conjunción de estos diferentes factores - renovación de los cuadros universitarios, escavaciones arqueológicas, núcleos museológicos y exposiciones - nos permiten hoy tener una perspectiva más amplia de lo que fue la islamización en Portugal. Desengáñense los que buscan el Islam en majestuosos palacios o en grandes mezquitas. No quedan en Portugal más que dos o tres trozos de muralla reconstruídos durante los períodos más antiguos de la islamización (Idanha-a-Velha y Évora son lo que más facilmente se identifican), restos de construcciones de época almohade (segunda mitad del siglo XII) - como los fragmentos de la mezquita de Mértola, el pozo-cisterna de Silves, algunas fortificaciones (como Paderne o Salir, ambas en el Algarbe) y poco más. El resto tendrá que encontrarse en museos y en excavaciones, en los textos de los poetas y de los geógrafos medievales, en imágenes antiguas y en lo que fue quedando en la cara de nuestras ciudades.

Si es verdad que mucho de lo que es posible ver es fruto de la arqueología - la exposición "Portugal islámico: las últimas señales del mediterráneo", montada en 1998 en el Museo nacional de Arqueología, habría sido imposible preparar dos décadas antes -, mucho de lo que hoy se llama, de forma un poco indiscriminada, "herencia árabe" no es más que el fruto de una civilización mediterránea, donde coexistieron a lo largo de centenas de años cristianos, musulmanes y judíos.

Escribí hace tres años, en un texto firmado en colaboración con Cláudio Torres: "Modos de vida ligados al pastoreo, la tejeduría y una agricultura de subsistencia marcaron, durante siglos, el cotidiano de las sierras entre Baixo Alentejo y el Algarbe. En el extremo meridional del territorio portugués, el lento trabajar de las aceñas, la explotación tradicional de las huertas y de los pomares, las artes de la construcción naval y de la pesca e incluso un persistente contacto con el Norte de África resistieron casi hasta nuestros días. Ese legado, hoy en acelerado proceso de extinción es ciertamente más dificil de identificar de lo que lo son los vestigios artísticos y arqueológicos que la islamización dejó en los territorios de Gharb"

Es por esa vía, la de la búsqueda de los simples hombres y mujeres que en lo cotidiano fueron construyendo la historia, que siguen hoy nuestros intereses. Más que de una historia de invasiones, guerras y batallas es un recorrido de memorias, de saberes y de técnicas heredadas y guardadas, o perdidas, aquel que se ha venido recorriendo.